quarta-feira, 14 de março de 2012

Amélia não era a mulher de verdade!

Aproveitando o Dia Internacional da Mulher, comemorado em 8 de março, gostaria de homenagear algumas das mulheres que, apesar de viver no “Castelo”, não tiveram vidas de princesa, mas transformaram-se em verdadeiras soberanas graças às duras experiências impostas pela vida.
Que me perdoem Mário Lago e Ataulfo Alves, mas discordo que a “Amélia é que era mulher de verdade”. Das tantas mulheres que eu conheço e que merecem ser assim chamadas, destacarei a minha mãe, a Maria Helena (Lena) Badolato, e as mães e parentes de amigos meus, como a dona Ordália Cordeiro, a dona Ilse Baptista, a Luiza Dias, a Conceição Costa, a dona Regina Marcolino, a dona Dóris Perallis, Celina Barcellos de Moraes, Alaide Castelli e tantas outras, às quais antecipadamente peço desculpas por não citar aqui.
À elas devemos, principalmente, a criação dos filhos maravilhosos que deixaram como seus vivos exemplos na Terra para dar continuidade à uma linhagem que precisa ser mantida. Todos nós, seus filhos, temos que deixar a modéstia de lado e admitirmos que somos pessoas do “bem”, que promovemos a honestidade, a ami­zade e a dignidade. Graças a essas mulheres maravi­lhosas que Deus teve o carinho de colocar em nossas vidas.
Com “ninhadas” de filhos, elas não tinham máquinas de lavar roupas ou pratos, não tinham faxineiras, empregadas, nem cozinheiras, não tinham automóvel (aliás, a maioria sequer sabia dirigir), não contavam com delivery e com nenhuma das tantas facilidades da vida moderna. Minha mãe, por e­xemplo, precisava ensaboar, ferver, quarar, lavar novamente, enxa­guar e colocar para secar ao sol as nossas roupas encardidas da terra do Chapadão ainda sem asfalto em suas ruas nas quais brincávamos. E foi tão benemérita auxiliando tanto o Movimento Assistencial Espírita Maria Rosa, a antiga Sopa do Grameiro, onde prestou serviços voluntários por mais de 40 anos, e enquanto a sua saúde permitiu.
A dona Ordália, que nada en­xergava, além de tudo, ainda ajudava no sustento da casa, costurando chapéus para a fábrica dos Cury. A Conceição Costa, que além de mãe foi uma super tia para todos nós, realizou paralelamente à sua vida doméstica um grande trabalho de assistência aos jovens viciados em drogas que pudemos acompanhar tão de perto.­
Mulheres que, se a dificuldade apa­receu, não passaram fome ao lado dos maridos e, em vez de acharem graça de “não ter o que comer” ou de enfrentar qualquer outra dificuldade, arregaçaram as mangas e foram à luta, priorizando a prole e ajudando – ou so­zinhas – a sustentar seus lares. Não viveram só de amor e, apesar de, certamente, também sonha­­rem e suspirarem para a lua, ves­ti­ram a armadura para enfrentar a tudo e a todos que um dia chegaram a ameaçar os seus castelos. São soldadas, são guerreiras, são exemplos. Das Amélias que conheço, só mesmo a que leva o Maria antes do nome e o Sanches como sobrenome, enfermeira de primeira linha e que curou tantas feridas, próprias e alhe­ias, com toda a dignidade que o mundo lhe deu.
É para essas mulheres a minha homenagem: que cuidam de seus filhos, pois sabem a responsabilidade que assumiram perante a vida ao dar a luz e, ainda, conseguiram tempo, coragem e disposição para cuidar de tantos outros. Embora algumas já não estejam fisicamente aqui, sei que ainda continuam olhan­do, orando e torcendo por nós. Obri­gada pelos exemplos que nos deram. Obrigada por terem feito parte e por ainda estar em nossas vidas.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Vivendo e aprendendo



Tudo o que acontece em nos­­­­­sa vida tem por obje­ti­­vo um ensinamento. Nós é que demoramos a perce­ber essa sutileza.
Em novembro, eu estive às voltas com os mais diversos transtornos após ter sido cassada a minha carteira de habilitação. Procurando ser mais correta possível, ao saber que atingi 20 pontos em multas, entreguei a minha carteira de motorista às autoridades de trânsito e participei de todo o processo legal para reaver o meu direito de dirigir.
Porém, só eu cumpri a minha par­te. Os orgãos governamentais deixaram a desejar. Mas essa é outra história. Parte dela é o que interessa nesse momento.
Depois de cumprido o “castigo” e atendido todas as exigências, procurei o Poupatempo do Campinas Shopping, logo às 9 horas da manhã, crente que voltaria para casa com a minha nova habilitação.
A Lei de Murphy, nesse dia, estava implacável: o sistema de informática do exame médico ficou horas fora do ar, mais de 400 pessoas aguardavam na fila do Banco do Brasil para efetuar o pagamento das taxas e o prazo de entrega foi estendido para o dia seguinte.
Eram 17 horas e eu continuava no Poupa­tempo, sem almoço, aban­­donando o meu trabalho e com o humor tão péssimo que nem eu podia suportar.
Depois de brigar com meio mundo, chorar, espernear, cai na real e me convenci que teria mesmo que retornar no dia seguinte.
A pé, constatei que não conseguiria chegar, de ônibus, à sessão de terapia agendada para as 18 horas, no bairro Guanabara. Para piorar, as nuvens negras, baixas e carregadas anunciavam um temporal.
Decidi pegar um taxi. Mas me lembrei que havia gasto todo o dinheiro em espécie no Poupatempo e que não portava o cartão de débito para saques no caixa eletrônico do Shopping.
Também não ando com talão de cheques. Só me restavam R$ 30,00 e o cartão de crédito, não aceito pelo único taxista disponível no local.
Ai começa a história que quero contar hoje. Eu já estava tão nervosa que para não perder o controle tentava me convencer de que nada acontece por acaso e que tudo e todas as situações devem ser encaradas como lições.
Eu não entendia o que eu tinha que aprender ali, com tanto descaso, com a péssima qualidade do serviço governamental e com a perda da minha carteria de habilitação.
Por mais que quisesse manter o pen­samento positivo, não conseguia.
Até que, do nada, surgiu uma moça que, ao ouvir eu perguntar o preço da corrida ao taxista até o bairro Guanabara, me perguntou se eu não poderia dividir a viagem com ela que estava muito atrasada para comprar passes para seus funcionários na Transurc - exatamente no caminho que eu seguiria. Com essa carona inesperada e a divisão da despesa, consegui chegar ao consultório da Debora em tempo, e com R$ 10,00 na carteira.
Mas, tinha a volta para a minha casa. A Debora poderia me dar uma carona, pois justo naquele dia tinha um jantar e eu fiquei envergonhada de pedir que desviasse no caminho.
Foi ai que meu irmão Carlinhos me ligou e pedi-lhe um carona. Agradeci, dispensei a Debora e fiquei a esperá-lo. Cinco minutos após eu estar sozinha, o Carlinhos me chama pelo rádio para avisar que a bateria de seu carro havia pifado e que aguardava o socorro.
Cansada e perguntado a Deus “o que foi que eu fiz dessa vez para merecer isso?”, solicitei a recepcionista do consultório um número qualquer de um serviço de taxi.
Liguei e expliquei que não mandassem qualquer taxi me atender. Precisava de um que aceitasse cartão de crédito, única forma de pagamento que eu dispunha naquele momento.
Rapidamente o taxi chegou e enquanto eu entrava no carro, chamei o meu irmão para informá-lo que agora seria eu quem iria socorrê-lo. Mas entrei no banco de trás o taxista informou:
-Só levo se for jornalista!.
Para minha surpresa, sentado à direção estava o Marquinhos Cordeiro, irmão do Clovis e cunhado da Lázara, os “todo-poderosos” desse jornal e meus amigos de infância.
O interesante é que nem taxista o Marquinhos é. Ele trabalha na área de informática e apenas dirigia o taxi do cunhado para fazer um bico. É mole?
Pedi que fosse comigo ver se o socorro já estava atendendo o meu irmão e, depois, segui para casa, cansada, mas aliviada e contente, principalmente por ter entendido a lição que a vida quis me ensinar:
“Qualquer que seja o mal momento que eu tenha que enfrentar, Deus sempre dará um jeito de manter os meus amigos por perto para me socorrer e para me ajudar”. Amém!!!

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Doces lembranças ... Amizade para toda a vida

Tenho que agradecer a Deus, todos os dias, os bons amigos que ele colocou na minha
vida não apenas em momentos singulares, mas para me acompanharem durante toda a
minha jornada. A maioria deles vem e vão. E mais uma vez retornam ao meu convívio.
Quem conviveu comigo no final dos anos 1980 se lembrará da Shirley Costa, que agora
assina também Charbonnier, graças ao seu casamento com o Jean Michel, um simpático
francês que tenta me convencer de que é rabugento. Eu a conheci em 1987 quando da
minha estréia como professora no Curso de Jornalismo da Puc. Ela era amiga de alunos
meus. Tínhamos, todos, pouco mais de 20 anos de idade.
Shirley morava em Valinhos e trabalhava, então, na loja de roupas da Rosângela.
Ficamos amigas de imediato. Saíamos para as noitadas, principalmente às quintas-
feiras, no Flor de Liz, com a Laine Turati e o Ivan Fontana. Sempre dormíamos na casa
da mãe dela ou da minha.
Dois anos depois de uma amizade bem chiclete, Shirley decidiu tentar a vida em
Portugal junto com as amigas Dayla e Marcia. Na época não existiam celulares e muito
menos internet. A ligação telefônica para o Exterior custava uma fortuna e a nossa
comunicação começou por meio de cartas e cartões em datas especiais. Em 1994 tive
a oportunidade de viajar para a Europa e inclui Portugal no roteiro para reencontrar a
minha querida amiga. Passamos uma semana maravilhosa entre Lisboa e o Algarves.
Nos anos seguintes muitas coisas aconteceram na minha vida e na dela e acabamos
nos separando. Eu perdi os contatos da Shirley e, ela, os meus. Conseguimos nos
reencontrar em 2004, quando participei do Programa do Jô para falar sobre o livro
biográfico de Vandir Dias. O programa foi exibido em Portugal e assistido pela Eliana,
a irmã mais nova da Shirley, que sempre foi obrigada a ceder sua cama para mim.
Apesar disso, Lica teve o cuidado de ligar para a produção do Jô para pedir o meu
telefone. Em 2007 Shirley e Jean Michel estiveram aqui. No ano passado, consegui
passar três dias com ela em Cascais, no apartamento da Eliana, que, é lógico, foi
obrigada, mais uma vez, a ceder a cama para mim e até hoje questiona se fez bem em
me localizar. Foi pouco para matar tanta saudade. Tanto que voltei agora, no final do
ano, para passar as festas em Estremoz com essa família maravilhosa. Sinto muito
orgulho dessa bem sucedida empresária que mantêm um escritório de comunicação
em Portugal e, outro, em Madri, e que ainda chamo de Shirloca. A vida na Europa e o
sucesso profissional e pessoal não alteraram em nada a sua meiguice, o seu coleguismo,
o seu companheirismo e a nossa grande amizade. Espero, de verdade, que a vida nunca
mais nos separe.


Vera Longuini
veralonguini@ateliedanoticia.com.br

sábado, 10 de dezembro de 2011

As meninas do vôlei do Circulo Militar




Tutti, Cris Vosgrau, Verinha, Celinha e Claudinha
Denise, Neusinha Fantini, Cris Fernandes, Ciça e Ana Vosgrau

Acabo de concluir que sou uma pessoa enturmada: tenho a turma de amigos da infância, do Culto à Ciência, do Jornalismo da Pucc, da ex-CPFL, da EPTV, do Correio Popular etc. Todas formadas por amigas e amigos queridos com os quais eu ainda me encontro e mantenho ótimo relacionamento. Mesmo que os encontros, em alguns casos, sejam anuais ou aconteçam em uma periodicidade maior.
Pois acabo de reencontrar uma nova turma: a das Meninas do Vôlei do Circulo Militar. O reencontro começou no facebook e culminou com a uma reunião no sábado, 03 de dezembro, na casa da Marcia Franciosi Nardini. O bacana é que todas nós continuamos as mesmas, algumas, inclusive eu, apenas com alguns quilinhos a mais para caber as grandes alegrias que a vida nos deu. Prova disso é que ninguém perguntou:
-Quem é você, mesmo?
E, continuamos “inhas”: Celinha (Grassi), Claudinha (Zanchetta), Betinha (Henn), Neusinha (Fantini) e Verinha (Longuini). Só a Marcia, que a gente chamava de Pata. Foram também ao (re) encontro a Cristina Fernandes, as irmãs Beraldo - Claudete e a Iara - e a Glaucia Crepaldi. A Alvarina e a Maria Cristina, que jogaram na Hípica, também apareceram por lá.
Sentadas: Celinha, Neusinha e Marcia
Lembramos das broncas do técnico Barbosa, e das amáveis palavras que ele nos dirigia quando estava nervoso; da Kombi amarela e preta que nos levava para casa no final dos treinos e dos jogos; dos títulos que conquistamos para o clube e do sanduiche de pão murcho recheado com presunto e queijo que nos era oferecido após cada partida nos campeonatos principais.
A maioria eu não via desde os meus 17 anos, quando ingressei na Faculdade e tive que parar de jogar vôlei para poder trabalhar e pagar meus estudos. Aliás, eu fui a primeira a parar, mas, como já disse, apenas por um motivo de “força maior”. Algumas pararam por volta dos 20 e poucos anos e, outras, continuam na lida, ainda enfrentando as quadras e dominando a bola e a rede, como a Glaucia, a Betinha, a Neusinha e as irmãs Beraldo. Senti a maior “inveja branca” delas, que ainda treinam, competem e amam o voleibol que foi uma parte muito importante de nossas vidas, numa época em que esporte não era, ainda, “coisa de meninas”.
Mas, nós, estávamos lá, treinando em quadra de saibro, a céu aberto, inclusive nas noites frias que pareciam ainda mais geladas no descampado do clube. Voltávamos com os nossos “Bambas” imundos de terra vermelha. Quadras cobertas só a do Taquaral, Tênis Clube e Regatas, usadas nos jogos oficiais, sem torcida, sem quase ninguém na arquibancada para prestigiar os nossos feitos. Outros, mas bons tempos. Tanto que marcou, para sempre, as nossas vidas. Valeu, meninas. O tempo pode ter passado, mas a nossa amizade continua vitoriosa!

sábado, 29 de outubro de 2011

Sobrinha de peixe, peixinha é

Desde criança eu sempre gostei de escrever. Em casa, apesar do pouco estudo dos meus pais, falar corretamente o português sempre foi uma exigência. Até hoje, uma concordância verbal errada ou a pronúncia de uma palavra inexistente ou trocada é motivo de correção, perto de quem quer que seja. Para quem não está acostumado, pode parecer grosseria, as desde pequenos fomos acostumados a corrigir uns aos outros. E não importa quem esteja por perto. No mínimo, quem ouvir aprende também.
Mas essa “insuportável” maia que temos de corrigir uns aos outros em casa pelo menos nos fez falar e escrever corretamente. Talvez, por isso, seguimos fazendo o mesmo com as novas gerações. E não é que está dando certo. No dia do meu aniversário, em setembro, fui surpreendida pela minha sobrinha-neta, Nicole, que tem apenas 15 anos. Há 9 anos, desde que comecei a trabalhar para a Expoflora, ela e os irmãos Isadora e Rafael (está com 5 anos, mas vai lá desde que nasceu) ficam um ou dois dias no evento comigo. Minha mãe também adorava visitar o evento das flores e, em especial, a Chuva de Pétalas. Em vez de contar, prefiro publicar o texto que a Nicole escreveu, intitulado “Porque optei fingir que acredito”. Ela escreveu:
“Há alguns anos, eu e minha família somos fiéis ao passeio na cidade das flores. É uma vez ao ano em que deixamos de lado os desentendimentos, decepções e tristezas que existem em qualquer família estranhamente normal. Um dia para dar o devido valor aos pontos altos de se ter uma família.
Esses dias são afogados por risadas, piadas sem graça e muita comida. Dia para matar as saudades de quem quase não se vê, dia de amar e ser amado. Dia de sorrir e, em troca, receber sorrisos.
A chuva de pétalas sempre foi a melhor parte. Todo mundo junto, grudadinho para presenciar a chuva mais delicada que existe. Finalzinho da tarde e todos estendem e elevam as mãos para sentir o toque das pétalas. Esse momento sempre foi bonito, já que dizem que quem segurar uma pétala ainda no ar tem um sonho realizado. E todos os anos eram iguais: milhões de sonhos, mãos para o alto, pessoas e pétalas
No ano que passou, minha família perdeu um pedaço. A nossa querida abelha rainha – conhecida também por ser irmã, tia, mãe, avó e bisavó -, resolveu que era a hora de partir para o andar de cima e nos deixou sem... sem mãe, avó e bisavó, que é o meu caso. A saudade tomou conta das casas e das pessoas e, por um bom tempo, ninguém conseguiu ouvir a palavra capelete sem deixar que uma lágrima escorresse de seus olhos.
Eu era aquela pessoa que tentava segurar pétalas por diversão, mas nunca acreditei na história da realização de sonhos. Porém, esse ano, a vontade de segurar uma pétala foi maior. Era como se alguma coisa estivesse me puxando para lá. Fiquei bem na frente e levantei as mãos. Estava disposta a segurar uma pétala.
A chuva com cheiro de flor começou e lá fui eu tentar segurar e sentir o cheiro da rosa. Depois de inúmeras tentativas frustradas deixei a mão direita aberta e não a movi. Um minuto, aproximadamente, se passou e, finalmente, uma pétala pousou sobre a palma da minha mão. Resolvi não conter o choro e o deixei percorrer o meu rosto. Choro de saudade e alegria caminhando de mãos dadas. Saí de lá com a pétala na mão e sentei-me em um canteiro de flores em frente à Sala da Imprensa. Fiquei quieta e comecei a curtir a saudade da minha bisa que voltou para me visitar.
Para a minha surpresa, a música “Como é grande o meu amor por você”, do Roberto Carlos, começou a tocar. Uma música que a dona Maria Helena – minha bisa – adorava e vivia a cantarolar. Optei fingir que acredito na história das pétalas, por sempre ouvir a minha “véia” falando que gostaria de segurar várias pétalas para pedir amor, alegria, saúde, dinheiro e paz para os parentes e amigos.
De agora em diante, tentarei pegar o máximo de pétalas que eu conseguir, para poder continuar a pedir todas as boas coisas que ela pedia. Assim, poderei lembrá-la com mais amor e saudade do que eu me lembro hoje”.
Não é uma fofa? Acho que logo,logo, essa menina puxa o meu tapete.

Vera Longuini
veralonguini@ateliedanoticia.com.br

sábado, 28 de maio de 2011

Vida cigana

Embora eu esteja em plena viagem de férias, só estou escrevendo a coluna esse mês porque a Neusinha Mafissioni e a Glaucia Crepaldi reclamaram da minha ausência no jornal. Fiquei tão feliz que prometi não falhar mais. Como estou longe, não tenho como pedir a ajuda dos amigos, mas aqui vai. Por sugestão do Clovinho, vou relembrar da época em que o Chapadão foi “invadido” por ciganos.
Quem morou no Castelo no final das década de 1960 e início dos anos 1970 deve lembrar-se da grande quantidade de barracas que durante anos ocuparam os terrenos baldios alheios, entre as casas recém construídas no loteamento que foi criado nas terras da antiga Fazenda Chapadão.
Creio que esse foi o primeiro bairro – ou um dos primeiros - escolhido pelos imigrantes, vindos principalmente da Romênia, para viver em Campinas. O inusitado para nós é que os nossos novos vizinhos moravam em tendas, sem energia elétrica e água encanada e tinham costumes bem diferentes dos nossos. Acho que foram os primeiros estrangeiros que conheci, além dos meus avôs.
Os moradores os viam com curiosidade, espanto e, alguns, até com medo. Afinal, ninguém sabia ao certo de onde vinham o que faziam aquelas pessoas. Os comentários eram de que viviam da venda de tachos de cobre e outros objetos artesanais.
Como ocupavam terrenos que nem deles eram, com a autorização de alguns moradores mais tolerantes faziam “gatos” na rede de energia elétrica e emprestavam a água das casas vizinhas. Alguns moradores reclamavam, mas meus pais nunca se incomodaram com isso.
Uma das famílias instalou uma barraca bem em frente à nossa casa, na Rua Ibsen da Costa Manso, e, por isso, era comum vê-los enchendo baldes de água nas torneiras de nosso jardim.
Lembro-me das ciganas banhando-se e aos seus filhos em bacias, ocultadas apenas por longos tecidos coloridos pendurados em cordas, como se secassem em um varal. Também me recordo dos comentários que corriam pelo bairro pelo fato das ciganas não terem vergonha de sacar o peito em público para dar de mamar às crianças, numa época complicada e moralista quando as campanhas de conscientização sobre a importância da amamentação materna sequer eram cogitadas para exibição nas emissoras de TV.
Seus modos e costumes eram, simplesmente, diferentes e, por isso, talvez provocassem um misto de admiração e indignação nas pessoas que começavam a povoar o bairro. A grande herança que temos de meus pais foi o ensinamento de sempre aceitar a todos como amigos e a nunca discriminar ninguém. Descontadas as brigas comuns entre as crianças, nosso relacionamento com os ciganos sempre foi muito bom.
Cética, minha mãe só não gostava quando alguma cigana oferecia-se para ler a sua mão em troca de alguns trocados. Sempre com respostas prontas, dona Lena devolvia:
-Não, obrigada. Mas se quiser eu posso ler a sua, respondia, para encerrar de vez a conversa.
Depois de um tempo vivendo em barracas, os ciganos começaram a adquirir os terrenos e a construir casas. Como meu pai ajudou na construção de muitas delas ou fez a parte de marcenaria daquelas residências, os ciganos passaram a nos convidar para as suas festas. As de casamento lembro-me bem, duravam três dias. Uma delas foi realizada pela simpática família do Emilio Bechara (acho que era esse o seu nome), que morava na esquina da Rua Bento da Silva Leite com a Avenida João Erbolato.
Nos terrenos desocupados foram montadas imensas barracas com mesas e bancos de madeira. A comida era muito farta, com direito a porco assado no rolete. As ciganas, com suas saias longas e coloridas e suas blusas ousadamente decotadas para a época, enfeitaram-se ainda mais, abusando do dourado nas vestimentas. As casadas distinguiam-se das solteiras pelo lenço que usavam na cabeça.
Embora construíssem casas grandes, as moradias dos ciganos, naquela época, dificilmente tinham portas, armários e acabamentos. Tão pouco móveis. A estrutura interna continuava sendo a das barracas, com panos pendurados nos ambientes e o único conforto eram os tapetes espalhados pelo chão. Depois de um tempo eles deixaram o Castelo e começaram a construir no Alto do Jardim Eulina e Taquaral. Perdemos totalmente o contato e hoje nem sei mais onde estão.
Em tempo. Esse mês tem a festa Junina da Igreja Cristo Rei. Estarei por lá, na barraca de minipizza, ajudando o Clovinho e a Lazinha. Que tal nos reunirmos para um quentão? Espero por vocês.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Solidariedade a granel




Muita gente pensa em ajudar ao próximo, mas não sabe por onde começar. A justificativa mais comum é a falta de tempo e de dinheiro para qualquer ação beneficente. Há muito tempo a vida vem me provando que a história não é bem assim. Assim como toda grande obra é sustentada por pequenos tijolos, uma boa ação é calcada no espírito de solidariedade e no amor que tomos trazemos no coração.
Os desafios, é claro, a primeira vista parecem imensos. Mas basta decidir enfrentar-los para que pessoas com vontade de ajudar surjam muitas vezes de maneiras insólitas ou inesperadas, em nosso caminho. Exemplos não me faltam nesses mais de 40 anos em que, levada pela minha mãe, decidi colaborar com o MAE Maria Rosa (antiga Sopa do Grameiro).
Um dos exemplos foi no Natal de 2010. Graças à colaboração de centenas de pessoas, conseguimos fazer com que o Papai Noel entregasse cerca de 400 sacolinhas com presentes, roupas, livros e produtos de higiene pessoal para as crianças e adolescentes do e para mais quatro creches que a própria entidade auxilia, na região dos Amarais e do bairro Matão.
Na Páscoa, não foi diferente. Tínhamos o compromisso de doar 250 ovos de chocolate para as crianças atendidas no Jardim Campineiro. Os preços praticados no mercado dificultavam a nossa tarefa. Eis que surge, pelo segundo ano consecutivo, a Marina, da Zenith Food, uma microempresa que funciona na Avenida João Erbolato, no Jardim Chapadão, para nos mostrar que nem sempre o lucro é apenas a sobra do dinheiro que entra na conta corrente.
A Marina produziu com exclusividade para a entidade, deliciosos ovos de 250 g cada, cobrando somente R$ 5,50 a unidade. A “turma do Castelo” ajudou muito, comprando caixas com 10 ovos ou passando o chapéu entre os amigos. Cada um colaborou como podia: a Laine Turati, que mora na avenida papa Pio XII, encarregou-se de arrecadar o dinheiro com os jornalistas do Correio Popular, onde trabalha. A Renata Tavares, que vive nas proximidades da Pedreira do Chapadão, fez o mesmo com o pessoal da Thema Relações Públicas. A Rosa Guedes, mãe da Renata, e a Lazinha Paes Lemes e o Clovis Cordeiro doaram caixas com 10 unidades. Mais gente ajudou: o pessoal da Embramac, capitaneado pela Vera Andrade, a Cristina Beluco, a Renata Sanches e a Valéria Salek, são algumas das amigas que estão sempre a postos em todas as campanhas nas quais nos envolvemos.
Assim, de ovo em ovo fizemos a Páscoa das crianças da entidade. Se os R$ 1.350,00 necessários nos pareceram uma fortuna no início da campanha, graças à contribuição de mais de cem pessoas, cada uma contribuindo com quanto dispunha no momento, pagamos pelos chocolates e, ainda, conseguimos cachorro quente e refrigerantes para a festinha de entrega. Parece pouco. E é, porque tem mais.
Lembram-se das quatro creches que ajudamos também no Natal? Elas pediram ajuda na Páscoa, mas a diretoria do MAE Maria Rosa explicou que estava difícil até mesmo para atender as crianças da entidade. Só que, conforme expliquei, a ajuda sempre aparece e só Deus – com certeza, só Ele mesmo – sabe de onde vem.
Na terça-feira antes da Páscoa a minha irmã Regina, que trabalha no Colégio Educap, na Vila Nova, me telefonou informando que as crianças da escola haviam feito uma campanha da Páscoa para o mãe Maria Rosa e solicitava que alguém fosse buscar as doações: óleo, macarrão, leite, achocolatado e muitos outros alimentos que garantirão as refeições para as crianças da entidade até o final do semestre.
Entre os donativos, 240 ovos de chocolate, embrulhados em sacolinhas decoradas com desenhos de coelhinhos pintados pelos alunos do Colégio. Doações suficientes para atendermos as mesmas quatro creches que ajudamos no Natal. Preciso contar mais?

Vera Longuini
veralonguini@ateliedanoticia.com.br